Metamorfoses

Dizem que o tempo é o protagonista das grandes reviravoltas na vida. Não concordo. Os grandes protagonistas somos nós, que aprendemos a viver nas tempestades, a mergulhar nas nossas dores, a conquistarmos o nosso próprio sol, reacendendo estrelas.

Ninguém nos explicou a melhor forma de amar, ninguém nos indicou o melhor caminho a seguir, não trouxemos connosco um manual de boas práticas. Vivemos como verdadeiros guerreiros numa arena, onde a maior luta a ser travada é com o outro lado do espelho. O maior desafio é estarmos conscientes das nossas limitações e ousarmos sempre sonhar. Mesmo que tenhamos medo, mesmo que nos tentem aprisionar, mesmo que a dor sufoque tanto que nos turve os sentidos, o caminho é sempre ousar.

Por definição, metamorfose é uma transformação pela qual passam alguns seres vivos no seu processo de maturação e que origina uma aparência e uma estrutura totalmente diferente da original. Para mim, a verdadeira metamorfose é a da alma e do coração. É aquela que nos toca tão profundamente que é impensável voltar a ser quem éramos. E tal como a lagarta tornamo-nos borboletas, livres para ser quem realmente desejamos e queremos ser. Sem críticas, sem julgamentos. Apenas como o universo conspirou para que fôssemos: seres mais vibrantes, mais determinados, mais felizes.

Blaise Pascal dizia que a principal tarefa do homem era conhecer-se a si mesmo. Quantos de nós nos propomos a isso? Quantos de nós temos a coragem de mudar? Quantos de nós desafiamos os nossos medos? Porque esta tarefa é tão difícil e para nos ajudar na transformação, a vida confronta-nos e surpreende-nos com profundos abismos e com dragões internos.

Para que eu encontrasse o meu lado V da vida, foi necessário conviver de perto com o meu lado sombra. Foi necessário questionar quem realmente sou e o que me permito ser. Foi fácil? Não! Mas desde criança fui apaixonada pela imagem da fénix que ao aproximar-se da morte, devorada pelas chamas, ressurgiria numa nova vida. Símbolo de persistência, transformação e esperança, tal vitória da vida sobre a morte. É assim que olho sempre o amanhã. Convicta que não podemos mudar o ontem, mas que o dia de hoje é uma história escrita por nós. Por vezes, não estamos preparados para a mudança, mas ela é inevitável. Só precisamos de a acolher num canto especial do nosso coração. Só precisamos dizer-lhe que tudo vai ficar bem e deixar que o resto chegue.

A maioria das vezes a metamorfose é o único caminho para a felicidade. É trocarmos de pele, uma e outra vez, é vivenciarmos os sentimentos ao limite. É sabermos que o desânimo, a frustração, a dor caminham de mãos dadas com o progresso, o desenvolvimento e a experiência. O sucesso, a alegria e a esperança fazem também parte desta jornada e aguardam-nos a cada virada de página. Como diria Heráclito:

Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como a águas, que já serão outras.

 

Será que não é tempo de nos transformarmos? De deixarmos de viver num casulo e darmos uso às nossas asas? De voar e conquistar a vida que queremos ter?

 

 

Vânia Vilas Boas
Artigos criados 9

4 comentários em “Metamorfoses

  1. Olá, lindo texto Vânia.
    Uma “metamorfose “seria bem vinda na minha vida. Mas antes, teria que pôr uns quantos “pontinhos nos is”. Agora estou na segurança do casulo. Mas vendo o lado V da vida, um dia chego a ser uma borboleta como tu. Um beijinho.

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