Djerba: Uma ilha de sonhos

O final de ano está aí, o verão já foi há muito embora, mas as memórias das férias, essas ficam sempre connosco. E este tempo com cheiro de Inverno e de memórias de um ano que acaba,  faz-nos querer voltar sempre ao Verão e aos locais onde fomos felizes. Pelo menos eu quero.

Este é o último dia do ano e numa retrospetiva de meses muito intensos e cheios de emoção, uma das memórias felizes que escolho de 2018 é Djerba. Viajar com verdadeiras amigas do coração é um dos maiores prazeres da vida, e a elas agradeço cada momento que passámos juntas. Obrigada Célia e Rita!

Não é fácil pôr em palavras os momentos de uma viagem tão rica, contagiante e inesquecível.  Talvez por isso só hoje partilhe convosco esta experiência.

Optar por viajar para a Tunísia surgiu precisamente pela ânsia de conhecer outra cultura, devido ao clima quente e agradável, e porque por alguma razão há mais de um ano que tentava convencer as amigas a não ter medo de viajar para este país. Acho que ainda me estão gratas a esta hora 😊

Procuramos algumas agências, várias opiniões e a verdade é que pelo feedback ou se ama ou se detesta a Tunísia. Muitos aconselharam-nos a escolher outro destino, disseram-nos que a Tunísia era um país pobre, sujo, que não íamos gostar de todo.

Os que me conhecem sabem que eu costumo ser um pouquinho (muito) teimosa, pois ao deixar-me levar pela opinião de outros, posso estar a abdicar de momentos incríveis. E assim foi. Dissemos SIM à Tunísia, em especial à Ilha de Djerba. Estamos a 31 de Dezembro e sei que voltaríamos a escolher este Destino.

Os historiadores mencionam Djerba como a primeira ilha onde, na Odisseia de Homero , Ulisses (primeiro turista de renome) e seus companheiros encalham quando estavam perdidos no mar, após o retorno ao lar da Guerra de Tróia.

 Por terem provado o lotos “um fruto doce como o mel que mergulha todos os que o provam nas delícias de um feliz esquecimento que que apaga todas as preocupações da existência” Ulisses e os seus companheiros não queriam abandonar a ilha pois “ esse fruto milagroso tinha mergulhado numa feliz amnésia”. Aqui os habitantes possuíam uma visão paradisíaca de viver. Era quase impossível retomar a viagem e deixar a ilha dos lotofagitas (comedores de lotos).

Djerba é verdadeiramente uma ilha de sonhos. Está localizada na extremidade sul do golfo de Gabes, a 5 km do continente e como diriam alguns, é um verdadeiro paraíso na terra. Dispõe de cerca de vinte quilómetros de praias de areia, situadas sobretudo na extremidade leste e nordeste da ilha, o que levou Gustave Flaubert no seu romance histórico Salammbô a apelidar Djerba de :

ilha coberta de pó de ouro, de verdura e de pássaros, onde as laranjeiras são altas como cedros […] onde o ar é tão doce que impede de morrer.

Hotel Club Palm Azur

Muito se tem dito sobre os hotéis da Tunísia. A verdade é que não poderia ter ficado num hotel melhor. E acreditem que passámos por vários! O Club Palm Azur é uma antiga cadeia RIU e as 4 estrelas são totalmente merecidas! Para terem uma ideia, o Booking dá-lhe uma classificação de 8.1! O que para um hotel de 4 estrelas é fantástico. O staff muito agradável e simpático desde o primeiro momento, os quartos eram limpos todos os dias e ainda tínhamos surpresas de decoração quando chegávamos ao final do dia. O hotel tem uma decoração super moderna, com um toque próprio da cultura islâmica. Estivemos por lá uma semana e não conseguimos aproveitar todos os recantos do hotel, especialmente porque ficámos tão fascinadas com a praia e com a água quente do mar.

   

  

Cerâmica “O camelo mágico”

A primeira paragem da nossa excursão foi numa loja de cerâmica “O camelo mágico”.

Ao entrarmos na loja deparamo-nos com um artesão tunisino no topo da loja a modelar as peças à mão. É algo raro de se ver hoje em dia. Uma atividade que passa de geração em geração. E como nos alertou o guia turístico, nenhuma peça era “ made in china” 😊 A cerâmica tunisina é verdadeiramente bonita. As cores dos azulejos inebriantes. Dá vontade de levar a loja connosco na mala.

  

  

Museu de Guellalla

Para quem deseja conhecer as artes e tradições populares de Djerba, o local a visitar é o Museu de Guellala. Foi inaugurado em 2001 e é um dos maiores espaços culturais da Tunísia. Foi construído na colina mais alta da ilha de Djerba com uma vista fantástica da cidade de Guellalla. O edifício é inspirado na arquitetura das casas menzel , com um anexo em forma de mesquita e um fantástico jardim central. Em várias salas são apresentados os costumes, as tradições, artes, ofícios e lendas de Djerba e da Tunísia em cenários verdadeiramente reais que nos fazem sentir parte da cultura tunisina.

  

  

  

 

Sinagoga La Ghriba

Nos arredores da capital (Houmt Souk) situa-se a sinagoga  La Ghriba,  na aldeia de Hara Sghira , um dos maiores marcos de identidade dos judeus de Djerba, umas das poucas comunidades que sobrevivem no mundo árabe e uma das mais antigas do mundo. Crê-se que os primeiros judeus que chegaram à ilha levaram com eles manuscritos das Tábuas da Lei que salvaram das ruínas do Templo de Jerusalém, sobre as quais construíram o santuário. Todos os anos, esta sinagoga atrai milhares de peregrinos do mundo inteiro principalmente Europa e África do Norte, que levam em procissão as Tábuas da Lei para o exterior da sinagoga.

Ficamos realmente encantadas com as cores,  beleza e a sensação de paz da sinagoga. De forma a visitar devemos cobrir a cabeça , e caso não tenhamos lenços, estão na entrada peças para empréstimo. Os sapatos devem ser descalçados antes de entrarmos na sala onde está o altar. À entrada  dão-nos um postal da sinagoga onde devemos escrever os nossos pedidos/desejos e afixa-los nas paredes. A sinagoga está bem conservada por ser já uma reconstrução do que existia, devido ao ataque bombista que sofreu em 2002. Desde então, a segurança tem regras mais apertadas. Os visitantes passam por um detetor de metais e são revistados. Esta sinagoga tem uma enorme importância para a comunidade judaica pois é uma das maiores do norte de África e uma das últimas do mundo árabe. É também a prova da tolerância religiosa num país onde judeus e muçulmanos convivem em paz à séculos.

 

Visita ao mercado de Houmt Souk

Estávamos verdadeiramente ansiosas por visitar o mercado. A Tunísia vive do e para o turismo e tudo nos mercados acaba por ser negociável. Os tunisinos adoram os turistas portugueses. Sempre sorridentes, falam-nos do futebol, do Figo, do Ronaldo, na tentativa de fecharem o negócio. Esperávamos ver algo mais tradicional e não tanto um aspeto mais moderno mas adorámos as cores, a agitação, as especiarias, os aromas, a cerâmica e a prata. A excursão estava minuciosamente programada de forma que não tivemos tanto tempo como gostaríamos para explorar todo o mercado.

    

 

Dias em Djerba

Quando tentamos perceber uma outra cultura, estamos atentos a todos os detalhes. Eu sou uma curiosa por tudo o que me rodeia e pelo desconhecido. Ao longo desta viagem e com a ajuda de alguém muito especial fui descobrindo os detalhes desta cultura.

Fui percebendo que o som que ouvíamos algumas vezes por dia no hotel era o Adhan, o chamado para a oração muçulmana.  Que o fazem 5 vezes por dia: ao nascer do sol, meio-dia, tarde, pôr-do-sol e noite.

Que a maioria das mulheres na Tunísia não usam a burca mas sim o Hijab, que é um véu que cobre a cabeça. Na tradição deles “o véu que separa o homem de Deus” e que significa cobrir, proteger de estranhos. Apenas vi uma família em Guelalla com Nicab, que é um véu que cobre o rosto e só revela os olhos. Percebemos também que o uso do véu tem também a ver com o facto de algumas mulheres não quererem ficar bronzeadas pois desejam ter pele clara.

Chegamos a ver alguns Burkinis na piscina do hotel e percebemos como a preservação da imagem pública é importante para as muçulmanas.

Fiquei verdadeiramente apaixonada pelas portas da Tunísia. São um elemento que marca a arquitetura tunisina. Portas ou portões trabalhados ou pintados de cores fortes com formas decorativas, motivos geométricos, sem figuração humana devido à doutrina islâmica. É frequente vermos o Hamsá ( “mão-de-fátima”) , símbolo da fé islâmica . A palavra Hamsá significa cinco – o número de dedos da mão, que representam os pilares do islamismo: Shahada – fé; Salat – oração; Zakat – caridade;  Sawm – jejum; Haji – peregrinação. É também uma referência a Fátima, uma das filhas do profeta Maomé que é venerada no islamismo, como a Virgem Maria nos católicos.

O pôr do sol nesta ilha é único. Quando o sol encontra o mar, a beleza é tal que nos perdemos no tempo. Os passeios de camelo e cavalo fizeram a delícia da nossa viagem. Passear na praia junto ao mar em pleno pôr-do-sol é uma imagem que ficará para sempre gravada na minha memória. Passear em final de tarde pelas estradas de Djerba, junto à população tunisina, entre caminhos de terra, palmeiras e sons do folclore tunisino ficou guardado no meu coração. Por momentos parámos e vemos que vale a pena repensar a nossa visão do mundo.

Desta viagem levo também amizades no coração de amigos portugueses do Norte. Obrigada Florbela, Bruno, Márcia, Edgar, Joana e Armindo! Nunca vou esquecer a compra dos nossos souvenirs naquele final de tarde caloroso e a vossa disponibilidade para connosco no último dia de Djerba. Que aventura a nossa!  😊

 

 

 

As noites são quase mágicas. Caminhar pelas estradas sem carros, rodeada de palmeiras, sentir a brisa quente no rosto, a lua cheia que espreita e o silêncio que nos envolve e afaga. É tão fácil sentir a felicidade num outro continente. E por momentos esquecemos o perigo que tanto nos falam, simplesmente porque esquecemos o mundo à nossa volta e entendemos a simplicidade daquele local e daquelas gentes. Quando estamos longe de casa parámos para apreciar os pequenos detalhes da vida.

Como diria Santo Agostinho :

 O mundo é um livro, e aqueles que não viajam, lêem apenas uma página.

Uma das minhas definições preferidas de viajar é “ficar intencionalmente inconsciente”.

Esta viagem a Djerba tocou a minha alma e o meu coração. Pela Beleza da paisagem? Sim! Pela cultura? Sem dúvida!

Mas acima de tudo e simplesmente porque olhei nos olhos daquele povo e percebi que precisam muito pouco para serem realmente felizes. Não importa se trabalham dez, doze, quinze horas por dia. O dia amanhece e o sorriso nos lábios e no olhar é o mesmo. Como se nem estivessem conscientes da beleza que os rodeia. Como se isso nem importasse.

E não é isso a verdadeira felicidade? 😊

Shukran Djerba! (Obrigada Djerba)

 

Vânia Vilas Boas
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